Outra visão

 

 

GASTRONOMIA - CACHAÇA

 

Nossa Celebridade

 

Cada vez mais saborosa e com status de destilado nobre, as cachaças de alambique

conquistam novos mercados e paladares no Brasil e exterior

 

Texto: Paulo Cunha

 

Matéria publicada na Revista Onde Comer - Agosto/ 2004


Ela está cada vez mais sofisticada. Nos últimos anos tem viajado pelo mundo e circulado por elegantes bares e restaurantes. Com sua fama internacional e reconhecida por suas qualidades, ela também tomou um banho de loja e de marketing para se apresentar ainda mais bonita pelo planeta. Requisitada por muitos, tratada com carinho, cheia de peculiaridades e com uma grande paixão de seus admiradores, esta celebridade nacional quebrou preconceitos quando ainda era perseguida, proibida e discriminada. Das senzalas entrou na casa grande, nas bodegas e armazéns. Passou pelos bares e pelas mãos de quem sempre a valorizou. Resistiu bravamente às dificuldades e entrou para a história do Brasil. Claro que estou falando de uma celebridade, não de um artista, uma pessoa, mas sim dela, a nossa brasileiríssima cachaça.

Branquinha, mardita, pinga, caninha, cachaça de alambique ou artesanal. O nome pode variar entre regiões e tipos de processo de fabricação, porém, uma regra é básica: para tomar e curtir a bebida descer gostosa pela garganta, deixar um pouco para o Santo faz parte da tradição.

Êta mercado bão!

Levando em consideração que a cachaça é a segunda bebida mais consumida no País - perdendo apenas para a cerveja -, ela é a bebida destilada mais consumida no Brasil e a terceira no mundo. De acordo com a Federação Nacional das Associações de Produtores de Cachaça de Alambique (Fenaca), atualmente produção chega a 1,8 bilhão de litro/ ano, sendo 30% de cachaça artesanal e 70% de cachaça industrial em 30 mil destilarias no País. Das 35 mil marcas de cachaça que estão registradas no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), cinco mil marcas estão ativas. Só o estado de Minas Gerais, maior produtor de cachaça artesanal, tem uma produção de 230 milhões de litro/ano, nos seus 8.500 alambiques. São números respeitáveis de um mercado com boas perspectivas de crescimento e gerador de empregos. Ainda segundo a Fenaca, o setor emprega por volta de 900 mil pessoas direta e indiretamente, sendo que em Minas Gerais chegam a 460 mil pessoas.

Mas nesse contexto com números tão favoráveis, pouco mais 1% (14,5 milhões de litro/ano) da produção nacional é exportado. A cachaça ganhou maior força para ingressar no mercado internacional quando foi inserida entre os produtos que receberam dos ministérios do Desenvolvimento, das Relações Exteriores e da Agricultura apoio especial em sua estratégia de exportação. Com isso, a cachaça, incluída pelo governo brasileiro no Programa Especial de Exportações recebe o suporte da Agência de Promoção de Exportações (Apex), que tem levado o produto s inúmeras feiras no exterior. Sabe-se que uma das grandes dificuldades para o incremento das exportações, principalmente no que se refere às cachaças de alambique ou artesanais é o fato de que a maioria das empresas é pequena e com pouco volume de produção para exportar sozinhas. Contudo, a padronização dos processos de fabricação, o selo de qualidade do produto, melhorias na apresentação (rótulo, embalagem e garrafa) e a criação de cooperativas de produtores é o caminho para o crescimento das exportações da bebida.

Por outro lado, o Programa Brasileiro de Desenvolvimento da Cachaça (PBDAC), coordenado pela Associação Brasileira de Bebidas (ABRABE), que reuni os produtores de cerca de 80% da produção nacional de cachaça, estão conscientes da importância econômica, social e histórica da cachaça, como símbolo da cultura brasileira e da indústria de bebidas alcoólicas. Por isso, através do PBDAC, a entidade busca o reconhecimento e tutela internacional das Denominações de Origem CACHAÇA e CAIPIRINHA, em prol da valorização mercadológica dos produtos e da ampliação das exportações. A meta do PBDAC é exportar, até 2010, um total de 38 milhões de litros da bebida. Atualmente, a Alemanha e o Paraguai representam, juntos, 46% das exportações brasileiras de cachaça. Itália (9%), Portugal (6%), Bolívia (5%) e Chile (5%) são os outros grandes importadores do produto.

Como um bom exemplo de sucesso que a nossa celebridade pode conquistar no mercado internacional é da cachaça Samba Rio, produzida em Brumadinho, MG. Neste ano já foram exportados 500 mil litros para a China de um total de 6 milhões de litros que ainda serão exportados. Os cuidados com detalhes como a garrafa, desenvolvida pela vidraria francesa Saver Glass, a embalagem com informações em ideogramas chineses, o rótulo e a própria cachaça, desenvolvida em parceria com os chineses, ajudaram a abrir as portas do disputado mercado asiático. Resultado: a Samba Rio irá desfilar pela China como um produto sofisticado, de primeira linha e vendido na mesma faixa de preço que as bebidas importadas mais caras.

Feiras da Cachaça: vitrine da bebida nacional

Com objetivo de promover e divulgar a cachaça como a bebida nacional do Brasil, apresentar empresas, produtores e serviços ligados ao universo da cachaça, três importantes eventos movimentam o setor todo ano. O maior e mais conhecido deles aconteceu em junho, em Belo Horizonte. A sétima edição da Expocachaça – Feira e Festa Internacional da Cachaça, a primeira feira comercial criada pelo setor recebeu neste ano um público de mais de 46 mil pessoas nos quatro dias de evento. Participaram 165 expositores, a maioria pequenos e médios produtores do estado de Minas Gerais, que trouxeram mais 700 marcas de cachaças artesanal. Desde o ano passado a Expocachaça também ganhou uma edição da feira na capital paulista, contudo, o evento em São Paulo, que acontecerá entre os dias 16 a 19 de Setembro de 2004, no ITM Expo, tem um perfil um pouco diferenciado da edição em Belo Horizonte, já que é mais voltada para a realização de negócios com o mercado internacional.

Já o Brasil Cachaça, outro evento importante no calendário do setor, aconteceu no mês de julho, no Anhembi, em São Paulo. A feira apresentou 400 marcas de cachaça artesanal de 12 estados brasileiros e recebeu um público de 17 mil pessoas nos quatro dias de evento.

DIFERENÇAS

Apesar do processo de destilação da cachaça ser praticamente igual nos mais diversos produtores em todo o Brasil, podemos encontrar variações acentuadas no sabor ao provar uma cachaça transparente ou como é mais conhecida branca, uma cachaça envelhecida ou uma amarela. Veja a seguir as principais características de cada uma:

1) Cachaça transparente ou branca: Normalmente envasada logo após a sua destilação, a cachaça branca tem sabor e aroma mais rústicos e agressivos, secos e ardentes.


2)Cachaça envelhecida: A legislação brasileira estabelece o tempo mínimo de um ano e tamanho máximo do barril de 700l para a cachaça ser considerada envelhecida. Usam-se várias madeiras brasileiras (bálsamo ou imburana, amendoim, cedro, freijó, jequitibá, dentre outras) ou o carvalho americano ou europeu, para a confecção do barril de envelhecimento. Cada madeira oferece permeabilidade e aroma diferentes à cachaça. No envelhecimento em barris, a cachaça perde álcool e enriquece com produtos secundários aromáticos provenientes da reação entre a madeira, o oxigênio e os componentes secundários produzidos na fermentação da bebida. É também a madeira que confere à bebida a cor dourada e o sabor aveludado, com gosto “redondo”, suave e fino.


3) Cachaça amarela: Na verdade, a cor nas cachaças amarelas – não envelhecidas – é conseguida através da adição de extratos de madeira ou calda de caramelo, que são misturados na cachaça branca, tornando o seu sabor somente um pouco mais adocicado do que a cachaça normal.

Fonte: Programa Brasileiro de Desenvolvimento da Cachaça

 

 

 

 

 

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